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Dados Confidenciais e Inteligência Artificial: o que nunca deve colocar no ChatGPT durante uma investigação académica

A Inteligência Artificial tornou-se uma ferramenta cada vez mais presente na vida dos estudantes universitários. O ChatGPT e outras soluções semelhantes podem ajudar a organizar ideias, explicar conceitos, melhorar a clareza de um texto, sugerir estruturas ou até apoiar determinadas fases de uma investigação. No entanto, existe uma questão que nem sempre recebe a atenção necessária: que informação estamos realmente a fornecer a estas ferramentas?

Durante a elaboração de trabalhos académicos, dissertações ou teses, é frequente lidar com documentos, bases de dados, entrevistas e informações que não devem ser partilhadas livremente. Por isso, utilizar Inteligência Artificial exige mais do que saber escrever um bom pedido. Exige também perceber quais os dados que nunca devem ser introduzidos numa ferramenta externa sem autorização adequada.

O ChatGPT não deve ser tratado como um arquivo privado

Um dos erros mais comuns consiste em assumir que uma conversa com uma ferramenta de Inteligência Artificial funciona da mesma forma que um documento guardado no computador pessoal.

Esta é uma forma perigosa de pensar.

Mesmo quando existem definições de privacidade e mecanismos de controlo de dados, um investigador não deve introduzir informação confidencial apenas porque pretende obter uma resposta mais rápida.

Antes de utilizar qualquer plataforma de IA, é importante conhecer as suas condições de utilização, as políticas de privacidade aplicáveis e, sobretudo, as regras definidas pela universidade ou instituição responsável pela investigação.

Nos trabalhos académicos que envolvem pessoas, empresas, hospitais, escolas ou outras organizações, este cuidado torna-se ainda mais importante.

Nunca coloque dados pessoais identificáveis dos participantes

Se realizou entrevistas, questionários ou qualquer outro tipo de recolha de dados, poderá ter acesso a nomes, endereços, números de telefone, endereços de correio eletrónico, números de identificação ou outras informações pessoais.

Estes elementos não devem ser copiados diretamente para o ChatGPT.

Imagine que pretende pedir à Inteligência Artificial para resumir vinte entrevistas. Copiar as transcrições completas pode parecer uma solução prática, mas essas entrevistas podem conter informação suficiente para identificar os participantes.

Mesmo retirar o nome pode não ser suficiente.

Uma pessoa pode ser identificada através da combinação de informações como profissão, idade, empresa onde trabalha, cidade onde vive ou função que desempenha.

Por isso, anonimizar dados significa muito mais do que substituir o nome por “Participante 1”.

Dados de saúde e outras informações sensíveis exigem cuidados adicionais

Existem investigações que trabalham com informação particularmente delicada, como dados de saúde, situações familiares, opiniões políticas, crenças religiosas ou outras características pessoais.

Nestes casos, o nível de cuidado deve ser ainda maior.

Se estiver a desenvolver uma dissertação sobre saúde mental, por exemplo, não deverá copiar para uma ferramenta de IA descrições completas dos participantes acompanhadas de informação que permita identificá-los.

O mesmo princípio aplica-se a bases de dados clínicas, relatórios médicos e outros documentos confidenciais.

Quanto mais sensível for a informação, maior deve ser a preocupação com a forma como é armazenada, processada e partilhada.

Não envie bases de dados originais sem verificar se pode fazê-lo

Ferramentas de Inteligência Artificial podem parecer especialmente úteis quando chega o momento de analisar dados. No entanto, antes de carregar um ficheiro deve verificar o que esse documento contém.

Uma base de dados utilizada num trabalho académico pode incluir muito mais informação do que aquela que aparece posteriormente nos resultados da investigação.

Pode conter nomes, códigos internos, contactos, datas de nascimento, respostas abertas ou informações fornecidas pelos participantes em contexto confidencial.

Antes de utilizar qualquer ferramenta externa, pergunte: tenho autorização para colocar estes dados nesta plataforma?

Se a resposta não for claramente afirmativa, não o faça.

Cuidado com entrevistas e grupos focais

As transcrições de entrevistas são outro exemplo particularmente importante.

É fácil pensar que uma entrevista pode ser enviada para o ChatGPT para obter categorias, temas ou um resumo geral. No entanto, uma transcrição pode revelar detalhes pessoais, informações sobre colegas, empresas, familiares ou situações profissionais que nunca deveriam sair do contexto previsto no consentimento informado.

Se pretende utilizar Inteligência Artificial na análise qualitativa, deve primeiro confirmar se essa utilização é compatível com o consentimento dado pelos participantes, as normas éticas da investigação e as regras da instituição.

O facto de uma tecnologia permitir fazer algo não significa automaticamente que seja adequado fazê-lo.

Informação confidencial de empresas também deve ficar protegida

Nem todos os trabalhos académicos utilizam dados pessoais.

Algumas dissertações e teses são realizadas em colaboração com empresas e incluem informação financeira, estratégias comerciais, documentos internos, dados sobre clientes ou processos que não são públicos.

Também neste caso deve existir prudência.

Um documento confidencial continua a ser confidencial quando é utilizado para fins académicos. Não deve ser colocado numa ferramenta de Inteligência Artificial apenas para obter um resumo, melhorar a redação ou facilitar uma análise.

O mesmo se aplica a documentos abrangidos por acordos de confidencialidade.

Não partilhe palavras-passe, credenciais ou acessos institucionais

Pode parecer evidente, mas nunca deve introduzir numa ferramenta de IA palavras-passe, códigos de acesso, chaves de API, credenciais de plataformas universitárias ou dados de autenticação.

Também não deve copiar mensagens que contenham estes elementos.

Se precisar de ajuda para resolver um problema técnico, descreva a situação sem revelar os dados que permitem aceder às suas contas.

E os textos ainda não publicados?

Uma dissertação ou tese em desenvolvimento também pode conter informação que o investigador pretende manter reservada.

Resultados inéditos, artigos submetidos a revistas, projetos de investigação ainda não divulgados ou ideias potencialmente sujeitas a proteção intelectual devem ser tratados com cuidado.

Antes de colocar grandes partes destes documentos numa ferramenta de Inteligência Artificial, deve perceber se essa utilização é permitida pela sua instituição, pelo projeto de investigação e pelas condições aplicáveis ao conteúdo.

A regra mais simples é perguntar se aquela informação poderia ser publicada

Existe uma pergunta muito útil antes de escrever qualquer coisa no ChatGPT:

“Eu sentir-me-ia confortável se esta informação deixasse de estar exclusivamente sob o meu controlo?”

Se a resposta for não, provavelmente não deverá introduzi-la.

Sempre que possível, trabalhe com exemplos fictícios, dados agregados ou informação devidamente anonimizada.

Em vez de apresentar uma entrevista real, pode pedir uma explicação sobre como fazer a análise temática. Em vez de fornecer uma base de dados confidencial, pode descrever a estrutura das variáveis e pedir orientação sobre o método estatístico mais adequado.

Desta forma, consegue beneficiar da Inteligência Artificial sem expor desnecessariamente os dados da investigação.

A Inteligência Artificial deve apoiar a investigação, não comprometer a sua segurança

O uso responsável da IA nos trabalhos académicos não depende apenas de evitar plágio ou confirmar referências. A proteção da informação é igualmente importante.

Uma boa investigação deve respeitar os participantes, proteger os dados recolhidos e cumprir as regras éticas definidas pela instituição.

Por isso, antes de carregar uma entrevista, uma base de dados ou qualquer documento no ChatGPT, pare durante alguns segundos e analise o conteúdo.

A melhor regra é simples: se o dado é pessoal, sensível, confidencial, reservado ou não lhe pertence exclusivamente, não o coloque numa ferramenta de Inteligência Artificial sem ter a certeza de que está autorizado a fazê-lo.

A Inteligência Artificial pode ser uma excelente aliada numa dissertação, tese ou noutros trabalhos académicos. No entanto, utilizá-la bem significa também saber quando não a utilizar.

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